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ALTO DO RODRIGUES
memória que já anda meio desgastada pelo uso. Esse
tipo de música era de uso comum de nossos menestréis,
numa época em que música ainda se classificava como
arte e cultura. A Célia citada ainda é divulgada nos saraus
quando se trata de celebridades da Música Popular Bra-
sileira, que começava assim:
"Andei tristonho e solitário,
Subindo o meu calvário,
Carregando a cruz pesada desta vida.
Chorei com resignação
Cumprindo essa missão,
Confesso ao meu Jesus, com lágrimas doridas.
Cheguei ao fim dessa jornada
Penosa e demorada
Com minha alma triste e transtornada desde então.
Covarde eu fui em desprezar
A Santa cruz do meu altar.
Foi grande a minha ilusão!
Célia, por você abandonei
Numa vale doloroso a minha santa cruz
Vindo acabar com meu sofrer.
Vejo o que idealizei
Com teu olhar faustoso e deslumbrante
Que seduz e alegra o meu viver.
Embora eu veja com tristeza o nosso amor morrer.
Sou tristonho e sofredor,
Vem, querida Célia,
Meu grande amor".
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GILBERTO FREIRE DE MELO
- Maria Cavalcanti cantava outra valsa não menos
famosa - Noite Enluarada, também de Attilio Grany e
Raul Torres - salvo engano aqui da memória já meio
enferrujada, uma pérola especial da Música Popular
Brasileira
, produto do tempo em que música também
era arte e cultura, que exibia a seguinte letra:
"Quando eu te vi naquela noite enluarada
Minha impressão é que tu eras uma fada,
Vinda dum mundo encantado,
Fugida do seu reinado.
Agora vi que a hipocrisia é um sortilégio
Tinha ela como máscara em seu rosto
E o teu sorriso encantador
É taça de veneno em formato de flor.
Tu passaste a vida a sorrir,
Pisando os corações indiferente a ir,
Agora voltarás, então hás de sofrer
Por tudo que fizeste os outros padecer.
Minha flor em puro olor embalsamada
Linda quimera que se diz tão inocente.
Acorda, lira magoada,
Com o teu sorriso doi ente
Mimosa falena, tu és a minha cruz.
Tu és qual Madalena
Eu sou qual Jesus".
A ala masculina, nos trabalhos de encenação, era
encarregada de umjogral adaptado de "Luar do Sertão",
em que os atores, em grupo de cinco ou seis, eram
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encarregados, cada um, de versos isolados do hino
de Catulo da Paixão Cearense
, que após a exibição indi-
vidual' cantava em coro o estribilho, mais ou menos,
aSSIm::
- O grupo abria os trabalhos, cantando em coro:
"Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do Sertão".
- Álvaro Freire era encarregado dos versos seguin-
tes e cantava:
"Oh! Que saudade do luar da minha terra,
Lá na serra branqueando
Folhas secas pelo chão.
Esse luar cá da cidade, tão escuro
Não tem aquela saudade
Do luar do meu sertão".
- O coro respondia:
"Não há, ó gente, ó não
Luar como esse do sertão"
.
- Em seguida, José Tomaz se apresentava,
entoando:
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GILBERTO FREIRE DE MELO
"Se a lua nasce por detrás da verde mata,
Mais parece um sol de prata,
Prateando a solidão.
E a gente pega na viola, que ponteia,
E a canção é a lua cheia
A nos nascer do coração".
- Voltava o coro a ação e emendava:
"Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão".
- Em seguida, o próximo ator, despontava:
"Se Deus me ouvisse com amor e caridade,
Me faria esta vontade,
O ideal do coração.
Era que a morte a descantar me surpreendesse
E eu morresse numa noite
De luar no meu sertão".
- O coro, sempre atento, repetia:
"Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do Sertão".
- E vinha mais outro ator que se apresentava:


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ALTO DO RODRIGUES
"A gente fria dessa terra sem posia
Não faz conta dessa lua,
Nem se encanta com o luar.
Enquanto a onça, lá na verde capoeira
Passa uma hora inteira,
Vendo alua, a se mirar".
- O coro cantava e encantava:
"Não há, ó gente, ó não,
Luar como esse do sertão".
Pode não estar bem retratado aqui, porém não eram
menos do que isso as encenações que tentamos demons
-
trar. O certo é que, numa época onde as informações
não se exibiam em meios mais palpáveis, isso represen-
tava, não apenas uma genial inovação, mas uma prima-
zia intelectual digna de louvores e de conhecimento de
todas as futuras gerações.
Dr. Hildson, conforme já foi dito, exibia conheci-
mentos, não apenas didáticos ou pedagógicos, mas, de
um modo geral, ostentava habilidades culturais admirá-
veis e fazia questão de demonstrá-Ias no convívio com a
comunidade que o respeitava sempre em qualquer pales
-
tra ou debate, fosse de caráter escolar, em salas de aula,
fosse de civismo, nas datas e comemorações patrióticas,
fosse ainda nos salões dançantes, onde se exibia com
técnica apurada e evoluções artísticas do excelente
"pé-de-valsa
", que se apresentava em qualquer ambiente
festivo ou social
. Dançava com maestria, fazendo inveja
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GILBERTO FREIRE DE MELO
a todos os demais pares dos festivais, que paravam para
o admirar. Quando
, então, se tocava um tango, sai da
frente, que Dr. Hildson, encontrando o seu par, dava um
verdadeiro espetáculo para qualquer platéia.
Engenheiro Agrônomo, entendia de técnicas agrí-
colas, pastoris e ministrava conhecimentos de repro-
dução de animais domésticos até então ignoradas por
quantos a praticassem pelos métodos rudimentares.
Selecionava raças e criava galináceos, reproduzindo-os
através de métodos técnicos racionais, utilizando cho
-
cadeiras em vez de usar a galinha matriz para chocarem
os ovos.
Convidava amigos, conhecidos, vizinhos e estra-
nhos também para dar amostras de como era feita a
reprodução em outras partes do mundo e que ele fazia
questão de trazer para o Alto do Rodrigues
. Mantinha
aves de raças exóticas, mesmo galináceos, que impor-
tava de outros centros e os fazia reproduzir pelos méto-
dos que demonstrava
à platéia convidada.
Não se cansava de exibir conhecimentos e trans-
miti-los através de cursos temporários que ministrava a
jovens, em turnos que se conciliassem com suas jorna-
das de trabalho e o ensino transmitido não era apenas da
alfabetização, mas ensinava também comportamentos
cívicos, sociais, e trazia as notícias de um outro Brasil e
de outros horizontes não alcançados ainda pela juven-
tude que ali se criava com as informações transmitidas
pelos meios de comunicação existentes: o caminhão
de Álvaro Rodrigues e o carro-de-bois de Manoel do
Meio.
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ALTO DO RODRIGUES
Era diferente dos habitantes locais, pois portava
formação educacional acentuada, até no linguajar que
usava sem as características da população sertaneja, sem
as peculiaridades do matuto
, do tabaréu, do beradeiro de
que se formava a grei de seu convívio.
É certo que se
educou em outras paragens e assimilou comportamen-
tos, estilos, até linguagem diferente das suas origens
.
Mesmo assim não deixava de compartilhar os seus
projetos, os seus programas, até o seu lazer com a comu-
nidade, participando de todos os festejos, das brinca
-
deiras, dos eventos, fosse ou não convidado, das bebe-
deiras em funções festivas ou mesmo em bares onde
estivessem os seus contemporâneos
. E, a partir de Alto
do Rodrigues, estendendo-se a outros centros maiores,
como Macau, Pendências ou Açu era bem recebido,
era conceituado, e privava da intimidade, não apenas da
população, mas das lideranças, dos chefes políticos e
das demais autoridades
.
Se tinha defeitos, como ser humano, não eram con-
tabilizados pela população
, pois a balança conceitual de
suas virtudes, registrava sua personalidade, e destacava
os serviços que prestava
à comunidade, independente
de critérios políticos ou interesseiros
, sendo criteriosa-
mente aceito e respeitado pela população.
Contraiu núpcias com Vicentina Soares, também
de esmerada formação educacional
, filha do eminente
Desembargador Antônio Soares
, de Açu, porém resi-
dente em Natal
. Vicentina, ainda entre nós, faz parte do
elenco de onze filhos
- sete mulheres e quatro homens -
deixados pelo ilustre e conceituado açuense, Dr. Antônio
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