GILBERTO FREIRE DE MELO
Aluízio que pensava
O povo inda está maluco,
Como no ano 60,
Como no ano 60,
Que ele com todo o suco,
Porém em 82
Porém em 82
Veio cair no cavuco.
E, comemorando a vitória de Zé Agripino sobre
Aluízio Alves, encerrou assim:
Aluízio Alves, encerrou assim:
Vou dar viva a João sem medo:
Viva João do coração!
Viva José da eleição
Viva José da eleição
Que foi pra ele um brinquedo.
Desenrolou o enredo
Desenrolou o enredo
De um caboclo bem esperto,
Com Furtado e Odilon,
Cantando com um bom tom
Dou viva a carlos Alberto.
Com Furtado e Odilon,
Cantando com um bom tom
Dou viva a carlos Alberto.
Tivemos a felicidade de
conhecer João Galo e parti-
cipar ativamente de sua convivência nos bares, nos serões,
nas sessões de cultura e na intimidade de sua família.
cipar ativamente de sua convivência nos bares, nos serões,
nas sessões de cultura e na intimidade de sua família.
os IRMÃOS ZACARIAS
Mais cantadores que cordelistas, foram conheci-
dos os irmãos Zacarias, JOÃO, SEBASTIÃO E JOSÉ,
nascidos e criados no Estreito, que espalhavam poesia e
cultura em toda a Várzea do Açu, com seus improvisos
dos os irmãos Zacarias, JOÃO, SEBASTIÃO E JOSÉ,
nascidos e criados no Estreito, que espalhavam poesia e
cultura em toda a Várzea do Açu, com seus improvisos
- 164-
ALTO DO RODRIGUES
e suas violas. Não deixaram ou não nos apresentaram
qualquer trabalho impresso de suas inspirações. Se dei-
xaram, não são conhecidos.
qualquer trabalho impresso de suas inspirações. Se dei-
xaram, não são conhecidos.
Apresentavam-se onde quer que lhes dessem opor-
tunidade e onde os convites fossem formulados. Enfren-
tavam-se em fanúlia, do mesmo jeito que se batiam
com colegas de outras paragens que aparecessem no seu
arraial. Não deixavam para mais tarde os debates que
pudessem fazer hoje. Fiho de João, existe em Pendên-
cias Joaci Zacarias que mantém, com a viola, a inspira-
ção e a vocação poética de seu pai.
tunidade e onde os convites fossem formulados. Enfren-
tavam-se em fanúlia, do mesmo jeito que se batiam
com colegas de outras paragens que aparecessem no seu
arraial. Não deixavam para mais tarde os debates que
pudessem fazer hoje. Fiho de João, existe em Pendên-
cias Joaci Zacarias que mantém, com a viola, a inspira-
ção e a vocação poética de seu pai.
JORGE FERNANDES
Cuidado para não se confundir o poeta aqui do
Alto do Rodrigues, com aquele mais conceituado das
vizinhanças de Natal. Fixado no Sítio São José, antes
conhecido por Buraco D' água, Jorge fazia versos, escre-
vendo-os a mão, vez que não lhe foram dadas oportuni-
dades de datilografá-los. Chegamos a ver alguns de seus
trabalhos manuscritos, dignos de qualquer antologia.
Talvez não tenha deixado nada escrito, nem sabemos
se os guardava. Os que vimos, foram nas mãos de seus
admiradores que divulgavam nas salinas, nos serões,
nos alpendres, nas ruas ou nas estradas.
Alto do Rodrigues, com aquele mais conceituado das
vizinhanças de Natal. Fixado no Sítio São José, antes
conhecido por Buraco D' água, Jorge fazia versos, escre-
vendo-os a mão, vez que não lhe foram dadas oportuni-
dades de datilografá-los. Chegamos a ver alguns de seus
trabalhos manuscritos, dignos de qualquer antologia.
Talvez não tenha deixado nada escrito, nem sabemos
se os guardava. Os que vimos, foram nas mãos de seus
admiradores que divulgavam nas salinas, nos serões,
nos alpendres, nas ruas ou nas estradas.
BENEDITO PEREIRA
Conhecido apenas por Benedito, um dos remanes-
centes dos heróis Tabatingueiros que vendiam sua pro-
centes dos heróis Tabatingueiros que vendiam sua pro-
- 165 -
GILBERTO FREIRE DE MELO
dução de verduras na cidade de Macau, viajando a pé,
transportando sobre as cabeças os enormes balaios de
cheiro verde para deleite e consumo dos macauenses.
Benedito também fazia versos, arranhando uma viola,
sem maiores apresentações.
transportando sobre as cabeças os enormes balaios de
cheiro verde para deleite e consumo dos macauenses.
Benedito também fazia versos, arranhando uma viola,
sem maiores apresentações.
N os debates entre os poetas violeiros,
chamados
pelejas, há normas técnicas de composição dos versos
a que devem obedecer tacitamente os cantadores.Por
exemplo: se a peleja se faz em sextilhas, que se com-
preendem as estrofes de seis versos, o cantador inicia
livremente a função, acabando a sextilha de modo que
seu companheiro comece a sextilha seguinte, fazendo
rima com a finalização do outro. Ou seja: se a sextilha
de um dos cantadores acaba com rima em ão, o primeiro
verso ou a primeira linha da sextilha do cantador que se
seguir deverá finalizar também em ão, como se diz no
teatro: pegar a deixa.
pelejas, há normas técnicas de composição dos versos
a que devem obedecer tacitamente os cantadores.Por
exemplo: se a peleja se faz em sextilhas, que se com-
preendem as estrofes de seis versos, o cantador inicia
livremente a função, acabando a sextilha de modo que
seu companheiro comece a sextilha seguinte, fazendo
rima com a finalização do outro. Ou seja: se a sextilha
de um dos cantadores acaba com rima em ão, o primeiro
verso ou a primeira linha da sextilha do cantador que se
seguir deverá finalizar também em ão, como se diz no
teatro: pegar a deixa.
Vejamos como Zé Pretinho do Piauí, em sua
famosa
peleja com o Cego Aderaldo, obedecia rigorosamente a
essa técnica:
peleja com o Cego Aderaldo, obedecia rigorosamente a
essa técnica:
O Cego:"Zé Preto, não me aborreça
Com o seu cantar ruim.
Com o seu cantar ruim.
O homem que canta bem
Não trabalha em verso assim,
Tirando as faltas que tem
Botando em cima de mim.
Não trabalha em verso assim,
Tirando as faltas que tem
Botando em cima de mim.
- 166-
ALTO DO RODRIGUES
Zé Pretinho: Cala-te, cego chinfrim
Cego aqui não faz figura.
Cego quando abre a boca
É uma mentira pura.
Cego aqui não faz figura.
Cego quando abre a boca
É uma mentira pura.
O cego quanto mais mente
lnda mais sustenta e jura".
lnda mais sustenta e jura".
Do mesmo modo, o Cego Aderaldo, especialista
nas
técnicas de debate improvisado, fazia, com perfeição, a
métrica, a rima e a seqüência, técnicas indispensáveis
da peleja que se preza. Naquela refrega, Zé Pretinho
insultou o Cego, com um mote novo, tentando apagar o
brilho do opositor que já começava a aparecer:
técnicas de debate improvisado, fazia, com perfeição, a
métrica, a rima e a seqüência, técnicas indispensáveis
da peleja que se preza. Naquela refrega, Zé Pretinho
insultou o Cego, com um mote novo, tentando apagar o
brilho do opositor que já começava a aparecer:
Zé Pretinho: "Eu vou mudar de toada
Para uma que mete medo
Nunca encontrei cantador
Para uma que mete medo
Nunca encontrei cantador
Que desmanchasse esse enredo
É um dedo, é um dado, é um dia,
É um dia, é um dado, é um dedo.
É um dedo, é um dado, é um dia,
É um dia, é um dado, é um dedo.
o cego: Zé Preto, esse teu enredo
Te serve de zombaria,
Te serve de zombaria,
Tu hoje cegas de raiva
O diabo será teu guia.
É um dia, é um dado, é um dedo,
É um dedo, é um dado é um dia.
É um dedo, é um dado é um dia.
- 167 -
GILBERTO FREIRE
DE MELO
Vemos aqui que a rima inicial do primeiro verso
do segundo cantador é igual à rima do último verso do
primeiro cantador (O Cego). Na segunda demonstração,
ocorre a mesma norma. Entendido?
do segundo cantador é igual à rima do último verso do
primeiro cantador (O Cego). Na segunda demonstração,
ocorre a mesma norma. Entendido?
Foi assim que Benedito, não obedecendo a essa
regra técnica de composição, mais por desleixo que por
falta de conhecimento, foi criticado por Cândio Cambão,
o Sabiá das Camaubeiras do Vale do Açu que, não acei-
tando a falta de apreço às regras da cantoria, fez a repro-
vação, assim:
regra técnica de composição, mais por desleixo que por
falta de conhecimento, foi criticado por Cândio Cambão,
o Sabiá das Camaubeiras do Vale do Açu que, não acei-
tando a falta de apreço às regras da cantoria, fez a repro-
vação, assim:
"Meu amigo, Benedito,
Home que canta adivinha,
Pegue lá o seu cordão,
Home que canta adivinha,
Pegue lá o seu cordão,
Que eu puxo na minha linha.
Porque é que eu pego na sua
E você não pega na minha?".
Porque é que eu pego na sua
E você não pega na minha?".
- 168 -
EXCENTRICIDADES
HISTÓRICAS
HISTÓRICAS
o CAVALO
ESQUIPADOR
Os habitantes da Várzea do Açu, onde se inclui,
geograficamente, com muita propriedade o Alto do
Rodrigues, mantinham seus hábitos individuais e osten-
tavam suas peculiaridades esportivas e divertidas que,
muitas vezes ultrapassavam os limites da individuali-
dade, tomando-se uma atividade cultural coletiva, pró-
pria da comunidade. Não eram monges carrancudos
encapuzados na rigidez de seus caprichos. Eram, pelo
contrário, alegres, felizes, brincalhões, bem humorados
e participavam das ações de lazer e de entretenimento,
freqüentando a casa dos amigos, os bares, as valsas, os
forrós, as vaquejadas, enfim uma série de divertimen-
tos em que se empenhavam para espantar o ócio, para
afugentar as asperezas e os motivos de alegria surgiam
imediatamente.
geograficamente, com muita propriedade o Alto do
Rodrigues, mantinham seus hábitos individuais e osten-
tavam suas peculiaridades esportivas e divertidas que,
muitas vezes ultrapassavam os limites da individuali-
dade, tomando-se uma atividade cultural coletiva, pró-
pria da comunidade. Não eram monges carrancudos
encapuzados na rigidez de seus caprichos. Eram, pelo
contrário, alegres, felizes, brincalhões, bem humorados
e participavam das ações de lazer e de entretenimento,
freqüentando a casa dos amigos, os bares, as valsas, os
forrós, as vaquejadas, enfim uma série de divertimen-
tos em que se empenhavam para espantar o ócio, para
afugentar as asperezas e os motivos de alegria surgiam
imediatamente.
Alguns, especialistas no ramo, criavam cavalos,
uns para serviços diversos, outros para esporte, correndo
nas vaquejadas, muito comuns ainda na região, e outros
ainda para passeio nas tardes de domingo, em que, sob
o estímulo de umas birinaites nas bodegas mantidas por
alguns mais dados ao comércio, geralmente instaladas à
beira das estradas para exploração de cereais, de man-
uns para serviços diversos, outros para esporte, correndo
nas vaquejadas, muito comuns ainda na região, e outros
ainda para passeio nas tardes de domingo, em que, sob
o estímulo de umas birinaites nas bodegas mantidas por
alguns mais dados ao comércio, geralmente instaladas à
beira das estradas para exploração de cereais, de man-
- 169 -
GILBERTO FREIRE DE MELO
timentos e de umas bebidinhas que, de vez em quando,
não faziam mal a ninguém.
não faziam mal a ninguém.
Hoje há quem queira denominar MARCHADOR,
nos haras mais importantes de alhures, que não se com-
param com o ESQUIPADOR, nem são a mesma coisa,
até porque este tinha mais velocidade e seu trote tinha
passos miúdos e mais velozes, diferentes do trote, do
galope ou da marcha. Era realmente uma marcha espe-
cial que desapareceu com os mestres especialistas.
nos haras mais importantes de alhures, que não se com-
param com o ESQUIPADOR, nem são a mesma coisa,
até porque este tinha mais velocidade e seu trote tinha
passos miúdos e mais velozes, diferentes do trote, do
galope ou da marcha. Era realmente uma marcha espe-
cial que desapareceu com os mestres especialistas.
E os passeios a cavalo, comuns na região, eram
mantidos por uma casta de pecuaristas extraordinários.
Criados e ensinados por mestres especializados, havia
os cavalos esquipadores. Eram animais mantidos a fino
trato, sob cuidados aprimorados, como: aparados os seus
cascos, tosadas (ripadas) as suas crinas, escovado o seu
pêlo, finalmente tratados com um carinho de que não
gozavam os animais comuns, provocando inveja a outros
criadores que não tinham nem usavam esses animais,
chamados esquipadores. Além do trato do amestrador,
era necessário que o animal demonstrasse cedo, ainda
novo, as suas tendências para esquipar, como trotando
no meio dos outros, num passo mais leve, porémjá indi-
cativo de que seria esquipador. Isso mesmo. Esquipador
era chamado o cavalo que esquipava. O cavalo que, a
partir de novo, ainda potro, além de demonstrar que se
adaptaria, aceitava e obedecia às exigências do ames-
trador que o preparava para as exibições mais capricho-
sas do proprietário que, em dias especiais, ostentando
o melhor que podia adquirir em termos de arreios e de
equipamentos, desfilava nas estradas, nas ruas, e nos
mantidos por uma casta de pecuaristas extraordinários.
Criados e ensinados por mestres especializados, havia
os cavalos esquipadores. Eram animais mantidos a fino
trato, sob cuidados aprimorados, como: aparados os seus
cascos, tosadas (ripadas) as suas crinas, escovado o seu
pêlo, finalmente tratados com um carinho de que não
gozavam os animais comuns, provocando inveja a outros
criadores que não tinham nem usavam esses animais,
chamados esquipadores. Além do trato do amestrador,
era necessário que o animal demonstrasse cedo, ainda
novo, as suas tendências para esquipar, como trotando
no meio dos outros, num passo mais leve, porémjá indi-
cativo de que seria esquipador. Isso mesmo. Esquipador
era chamado o cavalo que esquipava. O cavalo que, a
partir de novo, ainda potro, além de demonstrar que se
adaptaria, aceitava e obedecia às exigências do ames-
trador que o preparava para as exibições mais capricho-
sas do proprietário que, em dias especiais, ostentando
o melhor que podia adquirir em termos de arreios e de
equipamentos, desfilava nas estradas, nas ruas, e nos
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