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memorias do Alto pag.142a153







GILBERTO FREIRE DE MELO
"muito obrigado" dos donos das casas, às vezes, algum
trocado com que comprava o refrigério para a fanúlia,
ou algum produto como farinha
, feijão, açúcar, queijo,
manteiga, dependendo da possibilidade dos contratan-
tes. Às vezes, mesmo apenas os muito obrigado, Seu
João,
que também não desgostavam o artista
.
Essa alegoria durou enquanto viveu o menestrel
João Bem-te-vi
.
GERALDO, ZÉ VENENO, JOÃO DO OVO,
MANOEL E EXPEDITO
Eram cinco os irmãos da fanúlia de violonistas de
alta categoria, autodidatas, sem qualquer freqüência a
escolas de música, ou a mestres mesmo dali que lhes
transmitissem tão vultoso talento musical
. Assinavam
Nonato de Souza. Qualquer um dos cinco
, individu-
almente, dava seu espetáculo e chamava a atenção de
quantos o ouvissem dedilhar seu violão. Dava gosto ver
.
E, quando reunidos, os cinco exibiam um verdadeiro
concerto em qualquer situação. Não cantavam, apenas.
Acompanhavam ou solavam as músicas que, apesar da
inexistência dos meios de comunicação, sabiam serem
aquelas peças de Dilermando Reis, de Zequinha de
Abreu, de Altamiro Carrilho, de Emesto N azaré ou de
qualquer desses pai-déguas que nos fazem ainda abesta-
lhados ao ouvir as suas produções
.
Bastava pedir a qualquer um dos cinco e se ouvia
em solo a valsa Branca, de Zequinha de Abreu; Luar
do Sertão, de Catulo, musicada por Emesto Nazaré; A
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ALTO DO RODRIGUES
Pequenina Cruz de Teu Rosário, de Cândido das Neves;
Lua Branca, de Chiquinha Gonzaga
; Qual o Valor da
Sanfona, de Dilu Melo; e o mundão de pérolas hoje
descartadas e substituídas pelos sucessos de bundas a
rebolarem que não deixam de ter seus atrativos, porém
culturais, não!
Ainda pudemos, até há bem pouco tempo, ver Zé
Veneno, o mais moço, meio decrépito
, sem mais aquelas
habilidades, e sem a companhia dos outros quatro que
já se mandaram, alguns de botas batidas. Encontramos,
ainda, nas praias de Natal, Expedito que deleita os ouvi-
dos dos banhistas com os forrós que canta, acompanha-
dos por sua sanfona ou por seu inseparável violão ..
FRANCISQUINHO LOPES
Também atendia por Francisquinho de Nascimento,
por ser filho de Nascimento Lopes, natural de Alto do
Rodrigues, nascido, criado e vivido ali mesmo onde hoje
é o centro da cidade, pertinho de onde hoje são a Prefei-
tura e a Câmara Municipal
. Seu instrumento preferido




Francisquinho Lopes dedilhava com
maestria o cavaquinho no conjunto
dirigido por Anterino.



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era o cavaquinho, embora arranhasse também o violão.
F azia parte integrante do célebre conjunto mantido por
Anterino Araújo
, que contava ainda com Chico de Chicó
- violonista - e Manoel Galo - o do pandeiro, que nos
deixou recentemente e que, enquanto viveu, fez questão
de colaborar com as suas preciosas informações.
- FRANCISQUINHO, falecido há pouco mais de
dois anos, se tresandarmos a 2007, início deste relatório,
era filho de Seu Nascimento que ainda deixou lracilde,
Tiquinha e Darquinha.
Francisquinho dava vida, alma e coração pela
boemia. O seu desempenho no cavaquinho sacudia
as catacumbas, despertava a vida e dava inveja aos
passarinhos que se calavam ao ouvir Brasileirinho,
Tico-tico-no Fubá, Apanhei-te Cavaquinho e tantas
outras iguais da música popular brasileira que não se
sabe como chegavam aos seus ouvidos, desde que não
havia outro meio de comunicação entre o Sul/Sudeste
brasileiro e Alto do Rodrigues, aqui no calcanhar do
judas.
Ainda era vivo seu pai, Nascimento Lopes, quando
Francisquinho, devido às extravagâncias da boemia,
foi aconselhado a diminuir a bebida que não lhe estava
fazendo bem
. Foi quando se produziu o duelo virtual
entre a saúde e a boemia. A saúde se armou do poder
moral e conceitual de Seu Nascimento junto à comuni-
dade, que conseguiu fazer com que os vendedores não
servissem mais bebidas alcoólicas a Francisquinho, nos
território de Alto do Rodrigues e Pendências. A boemia,
por sua vez, armada com o poder melódico e lírico do
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cavaquinho, arrastava Francisquinho para Boa Vista,
a mais de quinze quilômetros além de seus dorrúnios
e de seu habitat
, no município de Pendências, onde,
em território independente, esbanjava poder, música e
liberdade.
Fez parte de um célebre conjunto musical maes-
trado por Anterino Agnaldo de Araújo, compositor,
intérprete e exímio violonista que recebeu de Pedro de
Lélis Bezerra, na hora da morte, o seu violão, um ins-
trumento nobre, adquirido sob o peso da abastança da
dinastia Camilo de Lélis Bezerra que esbanjava genero-
sidade ao tratar de interesses de seus filhos e netos, bem
situados na Fazenda Alemão.
Francisquinho faleceu e foi sepultado no Alto do
Rodrigues, de vida dedicada à boemia, depois à farrúlia
e no final à saudade dos bons tempos que não voltam
mais
.

Chico de Chicó
 Seu pai se chamava Francisco Silvestre da Silva,
conhecido por Chicó Cambito, um apelido que, se não
desonrava seus membros, também não era mui to cheiroso
para a farrúlia. Chamado também Francisco, numa justa
homenagem ao seu pai, Chico de Chicó corno passou
a ser reconhecido por onde passava, fazendo parte do
grupo musical de Anterino, tocava violão e interpretava
músicas de uma época que, ao ser executada pelo grupo,
já tinha algumas dezenas de janeiros de convivência
com o público.
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MANOEL BEZERRA DA ROCHA,
Chamava-se Manoel Bezerra da Rocha, conhecido
por Manoel Galo, irmão do poeta João Galo, que fazia
a percussão, executando um pandeiro, um dos mais
eficientes informantes das atividades musicais e extra,
ocorridas na sua época.
Participava, como pandeirista, do grupo de Ante-
rino, conhecido e lembrado durante muito tempo, devido
ao sucesso de suas apresentações e ao reconhecimento
das platéias que se reuniam nas casas de família, nas
escolas, nas sombras dos juazeiros, nas beiras do rio,
onde quer que estivessem, sempre dispostos a mostrar
suas aptidões. Às vezes, nas grandes festas do Rosário e
de Santa Luzia
, se juntavam a Mestre Avelino, famoso
e consagrado maestro de Macau que, nos finais de ano
e
nos dias da padroeira, executava, no seu saxofone,
músicas do quilate a seguir apresentado.
Não conseguimos saber ainda, e duvido que alguém
consiga, como é que eles aprendiam tantas e tão belas
canções, numa época em que não se liam jornais e até o
rádio era raro existir nas comunidades
. Sabiam de cor,
letra e música, e se apresentavam interpretando suces
-
sos criados por Orlando Silva, Francisco Alves, Sílvio
Caldas, Dalva de Oliveira, Carmem Miranda, Ademilde
Fonseca, Linda Batista, Marlene, Isaurinha Garcia, que
apenas eram vistas no Rio de Janeiro e em São Paulo,
muito poucas vezes em Natal, mas sem a presença dos
nossos artistas que nunca saíram da Várzea do
Açu para
além de 30 quilômetros
.
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ANTERINO AGNALDO DE ARAÚJO
o maestro violonista, que não era da Várzea do Açu.
Apareceu e aqui se situou, inicialmente como Professor,
depois como músico. Era de Touros e deixou, feita em
parceria com um seu conterrâneo chamado José Porto
Filho, uma música intitulada "Galo de Campina", nunca
esquecida por seus contemporâneos aqui na V ázea do Açu
e nas quebradas de Touros, onde a encontramos interpre-
tada por Raimundo Flor, entoado cantor e músico daquela
região
, com algumas publicações em CD que conhece-
mos. Anterino foi casado com D. Adalgisa, já falecida,
neta de Chico de Barros, aquele mesmo que foi executado,
no Saco, na Várzea do Açu, por Antônio de Gila, após
uma desavença familiar
, quando Chico de Barros agrediu
fisicamente a irmã de Seu Tonho.
É outra história.
Quando se fala hoje em Anterino, para identificá-lo,
é preciso dizer que é o pai de Núbia Lafaiete.
Fez, também, uma parceria com Mestre Avelino,
maestro da cidade de Macau que não faltava às festas
do Rosário e de Santa Luzia, na Várzea do Açu. Dessa
parceria, resultou uma música que ainda é recordada
como o hino ao povoado de Rosário, que se conside-
rou uma premonição. Quando alguém canta o estribilho
- "Adeus, meu Rosário, adeus, adeus" - sentem-se
lágrimas brotando dos corações.
As músicas, que não se sabiam como eram adquiri-
das, de autores como Cândido das Neves, o Índio; de Ari
Barroso, de Lupicínio Rodrigues, de Noel Rosa, de Para-
guaçu, e de tantos outros que constavam de seus reper-
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tórios, e eram executadas e exibidas com a impecável
perfeição de quem convivia com elas, com seus autores
ou com seus intérpretes criadores, numa época em que
Pendências tinha apenas um único rádio, no Bar de Cân-
dido Ferreira, e Alto do Rodrigues não tinha nem um
.
Não é muito comum, mas ainda se encontram pes-
soas, como Álvaro Femandes Freire, bem entoado, que
vai a qualquer microfone e canta Pesadas Trevas, um
enredo sentimental de uma paixão proibida entre um
escravo e uma princesa, de autoria de Paraguaçu, cuja
letra é a que se vê adiante:
"Pesadas trevas úmidas caíam
Sobre o castelo real, silêncio estava.
No fundo do cárcere, gemendo,
Prisioneiro, o pajem murmurava
.
- Ai de mim, ai de mim, quanto me custa
Louco ideal de um coração ousado.
Amo e idolatro a pálida princesa
E é por ela que eu vivo encarcerado.
Nisso, uma sombra tímida e alvejante,
Como um fantasma, assomou à porta
- Quem és, quem és? - pergunta o prisioneiro,
- Baixando a voz - Quem és, mísera morta?
- Morta não sou - volveu a branca imagem -
. - Põe em mim as mãos, oh alma ardente e louca,
Ninguém nos vê, o sentinela dorme,
Eu sou a filha do rei, beija-me a boca".
E ouviam-se ainda "A Pequenina Cruz de teu Rosá-
rio", "Sertaneja", "Nervos de Aço", "Perdão, Emília",
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Bianor abraçando o seu fole de oito
baixos, quando ainda não tinha a
sanfona que o consagrou.

"Acorda, Patativa", "Fracasso, Fracasso ... ", "Caminhe-
mos", "Ai que Saudades da Amélia" e tantas desse qui-
late que enterneciam as estrelas e faziam mais brilhante
a lua cheia de alcovitices aos enamorados. Vivia-se um
tempo em que a Música Popular Brasileira ainda era
classificada como arte e cultura.
BIANOR
Sanfoneiro dos melhores, chamava-se Bianor
Soares da Silva, nascido em São José do Seridó, aqui
mesmo no Rio Grande do Norte, era filho de Gilmar
Soares da Silva. Casou-se com Expedita Borges e presi-
diu muitas solenidades de forrós, de valsas e de brinca-
deiras, sempre animados com sua sanfona, sua compa-
nheira maior, enquanto viveu.
SINHORZINHO
Era filho de Madalena Dias, que era filha de Zé Dias,
lá da Barraca e ficou conhecido apenas pelo desempenho
da sanfona que conduzia e de que se servia para animar
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os festejos de que tirava sua manutenção. Não pertencia
a qualquer dos grupos já mencionados, porém não se
furtava a acompanhá-los nas funções para as quais fosse
convidado
.
MANOEL DE LIMA
Assim passou a ser conhecido Manoel Zacarias
de Araújo, pertencente àqueles mesmos Zacarias, lá do
Estreito, que, não sendo poeta como os três dos quatro já
citados, tocava coricertina ou sanfona, nas horas vagas,
sem participar de conjuntos ou de atividades comerciais
.
Exercia as funções para deleite dos próprios sentimentos
e, algumas vezes, a pedido de convidados. Chamavam-no
Manoel de Lima, por haver se casado com D. Lima, uma
costureira de Pendências, onde passou a residir.
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A POLÍTICA PARTIDÁRIA
OS PREFEITOS
A política partidária e eleitoral, em Alto do
Rodrigues, não apresentou diferenças das outras
comunidades. As lideranças mantinham alianças com
representantes estaduais e nacionais, faziam as cam-
panhas, ilustradas com ala-moças, carros-de-som,
comícios festivos, passeatas, carreatas e tudo quanto
era dado verificar-se nos demais lugarejos e municí-
pios da região. A única diferença mantida dos outros
municípios da região é que a maioria dos prefeitos
eleitos ali, até este momento, eram filhos enraiza-
dos e fertilizados pelas águas do rio Açu. E todos os
que relacionamos a seguir mantinham as vinculações
umbilicais que produziram o amor à terra sem o que
não
haveria, em Alto do Rodrigues, o altruísmo farta-
mente demonstrado na conduta de seus administrado-
res que abraçaram a idéia e empunharam a bandeira
desfraldada hoje por Abelardo Rodrigues Filho, em
sua quarta investidura na função de Prefeito, quando,
em 1982, proclamou a ARRANCADA PARA O
PROGRESSO.
Por ordem cronológica, se relacionam os prefeitos
de Alto do Rodrigues, a partir de sua emancipação, em
1963.
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GILBERTO FREIRE DE MELO
LUIZ MOREIRA DA SILVA
Não era da região. Chegou a Alto do Rodrigues,
vindo de Cascavel, no Ceará, e aí fixou residência. Com a
anu
ência das lideranças comunitárias, foi nomeado Pre-
feito para o período de transição, enquanto se tomavam
as providências para a eleição do primeiro prefeito cons-
titucional
. Assim, administrou modestamente, porém
com seriedade, o tempo de espera pelo Prefeito Consti-
tucional que se esperava fosse eleito pela população.




Luiz Moreira, o primeiro
administrador público de
Alto do Rodrigues.






























JOÃO FERNANDES DE MEDEIROS
João Femandes de Medeiros, conhecido por João
Teresa, eleito o primeiro prefeito de Alto do Rodrigues
recebeu do prefeito transitório Luiz Moreira da Silva, a
faixa de Prefeito Constitucional e constitucionalizou as
ações municipais, a partir de 1964 até 1968. Administrou
com inusitado rigor o seu orçamento, fato que não se con
-
ciliava com seu espírito gozador, hilariante, contagiando
de humor todas as ações do prefeito e de seus auxiliares.
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ALTO DO RODRIGUES

Bonachão, de riquíssimo humor,
João Teresa, levou a sério suas ações
na Prefeitura de Alto do Rodrigues.



FRANCISCO DE OLIVEIRA MELO,
Atendia por Chico Eliseu, foi eleito para a segunda
gestão
- 1969 a 1972 - da Prefeitura Municipal, com
sustentáculo nas suas ações clínicas, firmadas desde a
época em que não existia médico nas adjacências, de
que granjeou crédito da população e confiança na pres-
crição e administração dos medicamentos que fizeram
reverter muitas moléstias difíceis que traumatizavam
os seus clientes, de repente condicionados
à situação de
seus eleitores.




As diversas ações da medicina que
praticava com mais amor, assim o
conduziram para a administração
pública municipal
.
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