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memorias do Alto do Rodrigues


A EDUCAÇÃO - COMO
COMEÇOU
Francisca Lopes Barbosa - Depoimento publicado em trabalho de Pe. José
Luiz
, em 1987 -1~ gestão de Abelardo Rodrigues Filho.
Quando O professor Luiz Carlos Barbosa organizou
a primeira escola no Alto do Rodrigues, jamais imagi-
nou que seu pioneirismo se transformaria, setenta anos
d
epois, em quase três mil alunos matriculados nas esco-
las de Alto do Rodrigues.
Para se ter uma idéia do valor dado por seus coloni-
zadores no nascimento e crescimento de AI to do Rodri-
gues, três filhas de Álvaro Rodrigues, filho de Joaquim
Rodrigues F erreira, se dedicaram, sucessivamente, ao
ensino local. Chamavam-se Elisa, Isaura e Maria
. Ensi-
nar para elas, era uma missão. A grande missão de dar
ao futuro de Alto do Rodrigues possibilidades de novos
caminhos. Elas, como Didi Coelho e Stela Dantas, repre-
sentam a semente que foi lançada, com carinho e obsti-
nação, em toda a redondeza.
Sucedi a Maria Rodrigues. Com ela aprendi a levar
a sério a arte de ensinar
. Na década de cinqüenta e início
de sessenta, vivi a felicidade de ser professora em Alto
do Rodrigues
.
Naqueles anos, o pároco se chamava Padre José
Luiz e, de repente, criou-se aqui um clima de humanizar
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GILBERTO FREIRE DE MELO
para cristianizar. E a escola era o centro de tudo. Nela,
funcionavam o Centro Social, os Clubes Agrícolas e de
Jovens e o Clube de Mães. Ali, concentravam-se debates
sobre planejamento. Havia festas e euforia. Havia até
um jardim e uma horta regados com água do rio, nas
costas de burrinho da escola.




Professora Francisca Lopes
Barbosa conhecida e tratada
carinhosamente por Tiquinha



Volto ao Alto do Rodrigues, depois de mais de
vinte anos, e vejo em meus olhos que o que foi feito por
mim e pelas professoras que me antecederam não foi
inútil. Plantamos. E a semente agora se chama árvore.
Vejo quase 500 alunos na Escola Estadual Professor
Luiz Carlos e quase o mesmo número nas outras esco-
las estaduais do município. Vejo o município de Alto do
Rodrigues mantendo uma escola de primeiro e segundo
graus, e 1467 alunos nas escolas municipais da cidade e
na zona rural.
Agora eu me pergunto.: Valeu o esforço e a dedi-
cação dos professores de ontem? Valeu. A prova está
. Com escolas cujos mestres aprenderam aqui. Valeu
como ainda vale plantar.
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ALTO DO RODRIGUES
É esta a alegria que experimento com a população
escolar de hoje, vendo sua cidade habitada por rostos
estranhos, agora familiares e bem
-vindos, trazidos pela
ARRANCADA PARA O PROGRESSO.
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A VÁRZEA DO AÇU
Alguém poderá, por desconhecimento, querer con-
fundir a Várzea do Açu com o Vale do Açu. Até que dá
uma certa dificuldade a quem não se preocupar com a
identificação das duas áreas. Entendemos que o Vale
do Açu compreende toda a área cortada pelo curso das
águas do rio Açu, a partir de onde ele assim passa a ser
chamado. Seria, portanto, o Vale do Rio Açu.
A Várzea do Açu, porém, é mais específica da
região do baixo Vale do Açu, que não é apenas cortada
pelo rio, mas banhada
, entenda-se bem, banhada por ele,
quando o relevo da superfície se apresenta mais plano e
mais suscetível às inundações. Aí muda tudo. As terras
são mais férteis, vez que são sedimentadas pelos resí-
duos orgânicos e minerais arrastados - sabe-se lá de
onde
- e depositados ao longo das terras adjacentes que
as águas, quando transbordam, têm mais facilidade de
inundar. Aí está situada a Várzea do Açu
. Tanto assim
que os habitantes da cidade de Açu, quando se referem
à Várzea, não deixam dúvidas de que estão falando do
baixo vale, na direção do curso das águas, a partir da
sede do município. Nunca se ouviu alguém se referir à
V árzea, quando quer falar da área anterior à cidade do
Açu, para os lados de São Rafael
. É fácil cotejar.
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LOCALIZAÇÃO
Manoel Rodrigues de Melo, nascido no sítio Quei-
mado que, se existisse ainda, pertenceria ao município de
Pendências-RN, no centro da várzea, o maior cronista e
principal orgulho literário de nossa região, em seu livro
chamado Várzea do Açu, edição de 1940, apresenta a
distinção entre Vale e Várzea e delimita a área, definin-
do-a assim: "A Várzea do Açu começa a partir do sítio
chamado Estreito onde o rio cortou o dique da Serra de
Santana, vai-se alargando sucessivamente, ladeando as
bordas dos tabuleiros adjacentes, até morrer nas costas
do Oceano Atlântico".
É nessa área, à margem direita do rio Açu, onde
está localizado o atual município de Alto do Rodrigues,
que mantém a sua denominação original.
Viveu-se um tempo em que a comunicação se fazia
através do "carreiro" - o piloto dos carros-de-bois
- veí-
culo a tração animal remanescente de uma época em que
não se ouvia o ronco de motores de automóveis ou de
caminhões. O único barulho indicador da passagem ou
chegada do transporte utilizado na região era o cantar
dolente "dos cocão" das rodas do carro, lubrificados com
sebo e carvão vegetal para que o roçar no eixo, também
de madeira, produzisse mais estridente e mais melodioso
o som que parecia um gemido triste, plangente, ouvido
à distância. E o "carteiro' fazia o transporte de cargas,
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GILBERTO FREIRE DE MELO
de passageiros, de encomendas e das notícias que divul-
gava ao seu sabor, obedecendo ao princípio da sabedoria
popular: quem conta um conto aumenta um ponto.
Foi preciso que ainda muito tempo decorresse para
que surgisse, no Alto do Rodrigues a primeira agência
dos Correios e Telégrafos, cuja primeira titular foi Maria
Natália F erreira das Neves, filha do comerciante José
F erreira das Neves, conhecido por Zezinho F erreira.
Até então, as notícias, dos fatos e feitos históricos
da região eram transportadas pelo "c arreiro " , assim cha-
mado o condutor do carro-de-bois, que, de boca em boca,
as transmitia aos habitantes. Assim se fazia a comunica-
ção. Os casamentos, os batizados, os óbitos e as passa-
gens mais importantes da vida na Várzea do Açu; eram
distribuídas num colóquio verbal e entusiasmado entre
as comunidades, nos encontros casuais ou nas reuniões
dos alpendres que
à boca-da-noite se realizavam para os
comentários de tudo quanto se passava nas redondezas.
F atos dessa natureza eram anunciados e discutidos
com entusiasmo, com eloqüência e com amor, por pro-
fissionais do ramo, por conhecidos e por admiradores
que tomassem conhecimento e que, por sua vez, sentiam
a necessidade de transmitir aos conhecidos que fossem
encontrando daí em diante. Alguns não deixaram de ter
seu registro na crônica de então, o romanceiro popular,
a literatura de cordel, que era praticada por João Galo,
Chico Jerônimo e Cândio Cambão, os mais afamados.
Nesse contexto, está o Alto do Rodrigues que,
neste trabalho, tentamos apresentar como constante da
Aldeia Global chamada Várzea do Açu, no contexto das
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ÁLTO DO RODRIGUES
demais comunidades, Pendências, Camaubais, Porto do
Mangue e Macau
.
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COLONIZAÇÃO:
COMO SE INICIOU.
Na mais completa e detalhada pesquisa his-
tórica e geográfica da região, de autoria do escri-
tor Getúlio Moura, filho legítimo de Alto do
Rodrigues, aqui da Tabatinga, obra essa intitulada UM
RIO GRANDE E MACAU (2005), que nos presenteia
com um expressivo documentário sobre a região, dando-
nos os mais ricos detalhes históricos, o que, sem medo
de errar, registramos como o mais completo trabalho
sobre a história e a geografia de nossa ribeira. E, sobre
a colonização da Várzea do Açu, rebuscando o século
XVII
, a partir da página 79, ele diz:
"Em 1605, Matias e Antônio de Albuquerque rece-
beram uma sesmaria doada por seu pai, o capitão-mor
do Rio Grande, Jerônimo de Albuquerque, que abrangia
a região que futuramente pertenceria a Macau. Porém
só foram exploradas as salinas naturais de Galinhos e
Guamaré, identificadas nos mapas do Brasil do século
17, como as "Grandes Salinas".
Os holandeses foram os primeiros a usufruírem do
litoral de Macau, a partir de 1640, carregando sal e peixe
até 1654, quando foram expulsos do Brasil
. Os portu-
gueses então, com as riquezas das novas salinas, e deltas
piscosos, aos poucos ocuparam as fozes dos rios, entre
Guamaré e Macau.
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GILBERTO FREIRE DE MELO
João Fernandes Vieira, ex-capitão-mor da Paraíba,
considerado herói da l
uta contra os holandeses, tentou
se fixar no vale do Açu
, por volta de 1665. Ele construiu
um arraial que ficava distante 6 léguas ao norte da atual
cidade de Açu
", mas não conseguiu se estabelecer. Os
índios não deixaram
. No período em que ele governava a
Paraíba [1655-1657]
, capturou dois filhos do rei Janduí
e os en
viou ao rei de Portugal, como presente.
Em 1671, o sargento-mor Pedro Borges Pacheco e
ma
is 14 sócios adquiriram uma data de sesmaria "de 50
guas, do Ceará Mirim à Ponta do Mel, pela costa e
I
 "
para o su ...
Em 1682, foi concedida uma data de sesmaria a
Dona Ma
ria César, vva de João Fernandes Vieira, "de
15 léguas de compri
do e 15 de largo divididas pelas
co
stas das praias, no marco que divide o Ceará do Rio
Grand
e , para os sertões do Assu, inclusive as lagoas
Piatá e Itu ..
. ".
A Capitania do Rio Grande era subordinada à
Capitania da Bahia, até 170l. A partir desse ano, a
Capitania de Pernambuco assumiu essa responsabili-
dade. Em 1705
, o capitão-mor Cristóvão Reimão orde-
nou que se fizesse uma vistoria nas datas e sesmarias
do Rio Grande
. Comprovou-se que a data de Pedro
Borges Pacheco estava devoluta, a qual foi dividida
entre novos colonos. Entre eles, Dona Maria César. A
data concedida a ela foi medida, documentada e dois
marcos foram fincados nas extremidades da "proprie-
dade" (no litoral em Ceará Mirim e Ponta do Mel).
Nessa demarcação, tempos depois, sua parte oeste ficou
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ALTO DO RODRIGUES
conhecida como "Terra dos Pitas", do baiano Antônio
da Rocha Pita.
Em 1712, o sargento-mor dos "paulistas", José de
Morais N avarro, recebeu a "sesmaria do sítio Currali-
nho da praia da Ribeira do Açu, que pega da lagoa cha-
mada as Pendências para baixo ... , " até o Sítio Morro,
onde existiu o porto do Coronel Jerônimo.
A foz do rio Açu era citada como Barra de Manoel
Gonçalves, e já havia pescadores e salineiros naquela
ilha.
A partir do século 18, tiveram início as fazendas
de gado na região de Macau, inclusive a povoação de
Armazéns, depois nomeado Oficinas do Açu, próximo
de Penncias, do outro lado do rio. Lá foi onde primeiro
se preparou carne-seca (ou charque) no Brasil. O porto
de Oficinas exportava para várias capitanias da colônia,
inclusive em alguns navios estrangeiros, de passagem
pela ilha de Manoel Gonçalves.
Em 1763, Oficinas foi citada na sesmaria de João
Crisóstomo de Oliveira, datada de 20 de junho daquele
ano.
Em 1782, a faixa litorânea de Macau a Guamaré
pertencia a Francisco Carvalho de Valcacer. Após a
sua morte, suas terras e outras agregadas foram vendi-
das pe
la sua filha herdeira, F rancisca Rosa da Fonseca,
para os dois homens mais ricos de Pernambuco: Domin-
gos Afonso Ferreira e o tenente-coronel Bento José da
Costa.
Uma escritura de venda e uma declaração de bens,
do final/início dos séculos 18/19, descreve com deta-
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GILBERTO FREIRE DE MELO
lhes a Ilha de Manoel Gonçalves e Oficinas, citando
a ilha denominada Macau, com uma légua de leste a
oeste e meia de norte ao sul, não habitada, não serve
para criar por não ter água .
.. " e, ainda, todos os nomes
dos proprietários e das fazendas, quantidade de barcos,
escravos e animais de criação. Além dos povoados da
Ilha de Manoe1 Gonçalves e de Oficinas, só existiam
fazendas de criação de gado, em consideráveis distân-
cias entre si.".
Assim, segundo o nosso conterrâneo, pesquisador
Getúlio Moura, se iniciou a colonização da Várzea do
Açu.
Por essa época, já se registrava a presença de euro-
peus se instalando na região,
à medida que fugiam de
suas origens, perseguidos pela ignomínia da Inquisição
(o Vaticano ainda chama Santa Inquisição). Os judeus
que então se chamavam "Cristão Novos", com novas
identificações, novos nomes e sobrenomes que, força-
dos a uma conversão, aceitavam para não se identifica-
rem como judeus, as grandes vítimas da
Inquisição, cuja
caça mais intensificada
à época na Espanha, obrigavam
os caçados a uma migração para evitar as ações anti
-
judaicas que se tomaram mais cruéis que o nazismo,
alguns séculos depois. Nos séculos XVII e XVIII, che-
gavam ao Nordeste brasileiro, a maioria originária da
Espanha, entrando, de preferência, no Rio Grande do
Norte, pela serra do Martins, os corredores mais aber-
tos
à aceitação e ao asilo de famílias que se instalaram
no Seridó e na Várzea do Açu, fugindo ao holocausto
inquisitorial
. Marcos Antônio Filgueira, em seu trabalho
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ALTO DO RODRIGUES
intitulado OS JUDEUS FORAM NOSSOS AVÓS, de
1994, da Coleção Mossoroense, em pesquisa criteriosa,
relaciona famílias, com detalhes que abonam a veraci-
dade
. Dentre essas famílias, estão algumas que criaram
raízes na Várzea e seus descendentes ainda povoam as
margens do rio Açu, como
: Fonseca, descendentes dos
marechais de Alagoas que também chegaram ao Brasil,
corridos da Inquisição; Melo, Lemos, Bezerra, Mon-
tenegro, F ernandes, Dias, RODRIGUES, Cavalcanti,
Lopes Galvão e Lopes Viegas, estes ainda encontrados
em Carnaubais, Alto do Rodrigues e Itajá, sem, porém,
a manutenção do Lopes Viegas, retirado do registro,
porque os gaiatos, por deboche, estavam chamando-os
de "Lotes de Éguas". Tanto assim que Itajá era cha-
mado, no início da colonização, de "Itajá dos Lopes",
dada a incidência mais acentuada dessas famílias no
povoamento do local; e ainda se registram na toponímia
geográfica do Rio Grande do Norte, localidades cha-
madas "Diogo Lopes", município de Macau, e "Gaspar
Lopes", atual município de Pedro Avelino, nomes dos
dois irmãos que mais se identificaram com a colonização
aqui da província, asilados que sobressaíram em ações
mais arrojadas de empreendimentos, emprestando, por
justa homenagem
, seus nomes aos lugarejos da região
onde se instalaram. Eram famílias que tomavam nomes
diferentes para evitar a identificação da origem judaica,
perseguidas e seus componentes cruelmente queimados
vivos em fogueiras monumentais, quando reconhecidos
pelos carrascos da inquisição.
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