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memorias do Alto 131a141




ALTO DO RODRIGUES
cia de Cima, pelos fins do século XIX, provenientes
de Ponta do Mucuripe, no litoral do Ceará. O nome
Mucuripe que passou a constar de suas identificações se
deve ao fato de os títulos nobiliárquicos de antigamente
serem acompanhados do nome da terra de origem ou de
seu possuidor, ou ainda o nome da terra de onde viera a
pessoa
. No caso, foi dado pelo povo, o nome de Mucu-
ripe a
Seu Antônio que o conservou e transmitiu a seus
descendentes que ainda trilham os nossos caminhos.
Não eram todos uma mesma família. Alguns
dos Mucuripe de Pendência de Cima, como
Seu Gal-
dino, era Barbosa Dantas. Seu Antônio Mucuripe,
ligado aos do Alto do Rodrigues, era dos Pereira Reis.
Assim informou a este trabalho D. Isabel Mucuripe, a
matriarca localizada em Natal, no Conjunto Potilândia,
uma setentona de quatro costados, que ali viveu sob
. o nome que ganhou de seu marido João Clecino e foi
sempre chamada Isabel de João Clecino, apesar de per-
tencer aos Pereira Reis, os Mucuripe que aportaram no
Alto do Rodrigues.
Assim deve haver acontecido com os demais Mucu-
ripe que ainda hoje dão ao Alto do Rodrigues a subida
honra do entrelaçamento familiar que mantiveram com
os seus aborígenes (os do Alto).
É o caso de João Mucu-
ripe, que viveu 104 anos, irmão de Seu Antônio.
DEÓ
Assinavam F emandes do Nascimento, porém eram
conhecidos por Deó, os membros de uma numerosa
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família que ocupava grande parte do território de Alto do
Rodrigues, avançando no de Pendências, onde se encon-
tram ainda alguns netos de Zé Deó, um dos mais desta-
cados da família, que era dado a "capiloçadas" tendo o
senso de humor bem acentuado
.
Era um grupo numeroso e quase não dava para
contar nos dedos os filhos de
Seu Neco Deó, mais conhe-
cido pelo Velho Deó
, assim identificados:
- CHICO DEÓ era carreiro como o pai, porém de
uma perversidade incomum
. Usava a vara de ferrão para
estimular o esforço dos bois. Era um chicote de relho
(coro cru)
, com o cabo do tamanho de uma braça, com
um ferrão de metal na ponta para cutucar os bois mais
preguiçosos, ou mesmo somente por crueldade
. Chico
Deó, sem qualquer senso de piedade
, sem necessidade
mesmo, furava os olhos dos bois com aquele metal
pontiagudo.
- JOSÉ DEÓ - Registrado José Fernandes do Nas-
cimento, fixou-se no Bamburral, localidade que, após a
criação do município de Alto do Rodrigues, ficou divi-
dida e, deixando de se chamar A BARRACA, como
era quando pertencia a Pendências, passou a chamar-se
também Bamburral
, e assim ficou sendo Bamburral, de
Pendências, e Bamburral, de Alto do Rodrigues
.
Deó, assim chamado por quantos o conheceram, viveu
e morreu na área de Bamburral pertencente a Pendên-
cias, onde se casou com Marieta Silveira e com ela
produziu apenas um filho chamado Euclides Silveira
ou Euclides Deó.
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ALTO DO RODRIGUES
Agropecuarista, sem ser proprietário, Zé Deó
explorava terras agricultáveis de parceria, colhendo
desse regime, os "refrigérios" com que se mantinha e
mantinha sua pequena família, sobrando-lhe recursos
que lhe proporcionavam a criação de algumas reses,
num quintal mais povoado de que os de alguns proprie-
tários menos habilidosos.
A manutenção de seus animais é que lhe deram a
fama que ainda se comenta nos arredores. Mesmo sem
terra que produzisse ração para seus animais, eram estes
os mais gordos e mais robustos de quantos se expu-
nham aos olhares invejosos de seus circunvizinhos. Aí
é onde havia o segredo. Nas vazantes de proprietários
ou de meieiros que não tinham animais de cria, existiam
mananciais de feno constituído de rama de feijão, de
batata, de melancia e de muitas outras leguminosas que,
mesmo ainda em fase de produção, davam a Zé Deó con-
dições de transportar, para seu curral, feixes enormes de
ração, sem a necessidade de autorização do proprietário.
Os feixes conduzidos na cabeça, por Zé Deó, eram os
maiores de que já se ouviu falar e, no transplante daquela
vazante para o seu curral, muitas vezes era surpreen-
dido pelos proprietários, mas Zé Deó, com habilidade,
se deitava sob o feixe que, de tão volumoso, encobria-o
sem deixar transparecer qualquer traço de sua identifi-
cação, e, de tão pesado, impossibilitava a qualquer um
de removê-lo, se tivesse vontade. Mesmo perfurado (o
feixe) por um facão rabo-de-galo conduzido pelo dono
real da ração, não atingia o vivaldino que estava deitado
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GILBERTO FREIRE DE MELO
sob o volume. Meio conformado, o investigador apenas
dizia:
- pode ser astúcia de Zé Deó.
E Zé Deó, deitado sob o feixe de ração, quando
sentia haver ido embora o importuno prop
rietário,
levantava-se com o imenso volume que só ele era capaz
de conduzir, dado o seu peso e o volume do feixe.
Doutras vezes, Zé Deó amarrava nos pés suas
"apragatas" em sentido contrário, disfarçando a direção
a que se destinava e que, vistos pelo investigador, os
rastros indicavam sentido inverso ao do curral de suas
vacas. E assim eram mantidas as vacas de Zé Deó, mais
gordas, mais saudáveis e produzindo mais leite que as
de seus vizinhos que não usavam desses artifícios.
- JOAQUIM DEÓ, agricultor, como os demais de
sua relação, viveu e morreu em Alto do Rodrigues
.
- MANOELZINHO DEÓ, motorista de caminhão
na cidade de Açu, conduziu, como empregado, enquanto
viveu, um caminhão daqueles antigos, de apenas quatro
rodas, nas estradas de barro de Açu para Macau
.
- ANA DE DEÓ, casada com Chico Leandro, lá da
Barraca, como se chamava antigamente o Bamburral,
de Alto do Rodrigues, produziu filhos e netos
, dentre
os quais localiza-se ainda Maria das Dores Leandro,
conhecida e tratada carinhosamente por Dainha, uma
espécie de militante que muito colaborou nos proble
-
mas de saúde de Alto do Rodrigues, quando todas as
ações médico-ambulatoriais eram de responsabilidade
de Chico Eliseu, a quem Dainha auxiliava nas emergên-
cias e nos partos por mais difíceis que se apresentassem.
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Neta de Ana Deó, Dainha é ainda, em qualquer situação,
uma colaboradora incansável e uma amiga-irmã de quem
a procura, mantendo a tradicional característica de seus
antepassados que serviram mais do que amealharam.
- JOANA DE DEÓ, que se fixou em Bamburral,
após um acasalamento informal mantido com Manoel
do Meio, um carreiro amigo e colega de seus irmãos.
Teve um filho que registrou Clóvis Femandes do Nas-
cimento, o qual, numa época em que sua mãe manteve
uma convivência caseira com o agropecuarista José
Piolho, recebeu o apelido de "Cobrinha", dado o seu
comportamento, a sua vivacidade, a sua maneira de cum
-
prir correndo todas as ordens e necessidades do patrão.
Enquanto não pôde fugir aos tipos de trabalho existentes
na região, Clóvis foi empregado de salina, até que se
transplantou para São Paulo, onde passou a ser embar-
cadiço, e, na marinha mercante, passou a dar assistência
mais confortável a sua mãe, uma heroína que enfrentou
os maiores sacrifícios para criar e manter aquele filho
que, em compensação, nunca deixou de lhe proporcio-
nar as venturas que merecia.
E naqueles dias em que
o correio lhe repassava os valores enviados por Clóvis,
ela, ao chegar à casa, ajoelhava-se no quintal e rezava
alto, abençoando e agradecendo a Deus e a Manoel do
Meio o erro que cometera. Sim, o seu erro, que bendi-
zia e que lhe dava orgulho, fora o acasalamento com
Manoel do Meio, um carreiro pachola que a conquistara
e a quem dera os seus três vinténs que resultaram no
nascimento daquele filho abençoado pelos deuses que
lhe tratava como mãe e como rainha de suas origens.
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Os vizinhos ouviam suas preces fervorosas e até
gravavam na memória, suas invocações de gratidão,
dizendo alto:
- M .anoel do Meio, bendito seja o nosso erro!
- MARlINHADEDEÓ, tambémradicadaemBam-
burral, onde se casou com Chico Pereira, conhecido 'por
"Chico Berada", carregou, enquanto viveu, uma depres-
são que lhe abalou a estrutura nervosa, sofrendo cons-
                                                                                                                    tantes crises, umas maiores outra menores, de nervos                                                                                                    /'
que, às vezes, lhe levava à quase loucura. Teve apenas
um filho que batizou de Francisco e era conhecido por
Chico de Mariinha.
- SALVINA DE DEÓ - Não se localizaram des-
cendentes seus.
JÚLIA DE DEÓ que se casou com Manoel Lean-
dro, deixou alguns filhos conhecidos, viveu sempre em
Alto do Rodrigues
.
MULATINHO
Mais para o povoado de Lagoa de Pedras, era situada
a família Hilário Mulatinho. Só que o sobrenome Hilário
não tinha nada de hilariante, de bem humorado, de goza-
dor que se conciliasse com aqueles Mulatinho que conhe-
cemos e que ainda têm consideráveis representantes na
região. Eram e foram conhecidos como brigões, valentes,
daqueles que não levam desaforos para casa e não perdoam
afrontas ou ofensas aos seus familiares. Atualmente, mai
s
idosos, e mais pacatos, em face das perdas de membros e
de líderes assassinados em confrontos com adversários de
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igual ou maior capacidade guerreira, assim, mais sensatos,
encontramos Antônio e Cândido Hilário Mulatinho, para
citar os homens mais velhos, comandantes de seus e dos
descendentes daqueles que se fo
ram, precocemente, em
conseqüência das inimizades produzidas.
Os Mulatinho, apesar da fama, mantinham relativa
liderança na família e nas comunidades, tanto assim que
um de seus membros mais jovens, do segundo escalão
,
chamado Edivan Olegário Mulatinho, foi vereador em
Alto do Rodrigues, onde continua residindo a maioria
da numerosa família
Cândido Hilário Mulatinho, (o da foto) pai do
vereador Edivan, é estabelecido com empresa agro-
pastoril, apaixonado por vaquejadas
, com propriedades
rurais desde o Bamburral, até a "Boca da Várzea"
, onde
se localiza a maior quantidade de poços p
rodutores de
petróleo, por metro quadrado
, de todo o Vale do Açu.
É o mais velho dos remanescentes, sério, carrancudo,
destemido, respeitando, porém sem abrir caminho ao
encontrar qualquer dos inimigos produzidos por si ou
por seus familiares em épocas passadas.




Cândido Mulatinho, o mais antigo
remanescente dos Mulatinho
, de
Lagoa das Pedras.



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GILBERTO FREIRE DE MELO
É Hilário, mas não é de brincadeira. É um homem
sério, dedicado à família, trabalhador e cumpridor de
seus deveres como cidadão e como empreendedor, vir-
tudes que se atribuem aos demais familiares, os mais
novos, que não herdaram a infecção da violência, mesmo
quando atacados de algumas birinaites que transforma-
vam em belicosos os mais antigos, nada hilariantes.
OLEGÁRIO LEONEZ
Talvez seja, depois dos Rodrigues, a mais nume-
rosa família de toda a Várzea do Açu, sendo, no Alto
do Rodrigues, a maior concentração de seus membros,
embora muitos outros hajam emigrado para as comuni-
dades vizinhas e para outras paragens
.
Os mais velhos que se conheceram eram situados
em Lagoa de Pedras.
Por aproximação, entraram em conflito de que não
eram culpados, com os seus vizinhos, os Hilário Mulati-
nho, em cujo resultado se contabilizam baixas em ambas
as partes, fatalidades que os entristeceram e apavoraram
as demais famílias da redondeza.
Também numerosos, os Olegário Leonez, sempre
estiveram em desentendimento pessoal e familiar com
os Mulatinho, embora se contabilizem entrelaçamen-
tos familiares, até casamentos entre membros das duas
famílias.
Só que os Olegário não provocavam as rixas.
Eram, geralmente, provocados por seus desafetos que
eram mais belicosos, alguns mais imprudentes, por isso
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ALTO DO RODRIGUES
se registravam, nos desentendimentos, mais baixas na
familia Mulatinho. Os Olegário Leonez se faziam res-
peitar por ações mais revanchistas e mais eficazes, pois
não precisavam se embriagar para o enfrentamento das
provocações dos Mulatinho
.
Nunca foram esquecidos e estão dentre os primei-
ros povoadores da Várzea do Açu
: Jerônimo Olegário
Leonez, situado no Saco, e Anacleto Olegário Leonez,
em Lagoa de Pedras, os patriarcas que se fizeram repro-
duzir nas ações pacíficas e assaz respeitosas de João
Cotoco, Zezinho de Anacleto, João Olegário, Antô-
nio Olegário, o vereador de Alto do Rodrigues, dentre
outros.
Em contrapartida, são conhecidos como excelen-
tes pais de familia, trabalhadores que nunca deixaram
de honrar os seus compromissos. Muitos já se foram,
porém deixaram descendentes que povoariam qualquer
outra região, se arrebanhados.
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OS MÚSICOS
JOÃO BEM-TE-VI
Assim era conhecido e aclamado o promotor e
produtor musical que não era propriamente músico ou
executor de qualquer instrumento que dependesse de
suas habilidades. No entanto, carregava num saco uma
radiola que, acionada por uma manivela lateral, rodava
um disco daqueles de 33 rotações, de cera ou de outro
material que não era vinil
. Sabe-se que rodava na placa
redonda daquela radiola e transmitia a música conforme
estivesse impressa naquele disco. Sua radiola se parecia
com o gramofone que nossa geração conheceu de perto.
Só que não tinha aquela bocarra imensa nem o colorido
atrativo que lhe respaldava.
Onde quer que parasse, fosse ou não convidado,
arriava a bagagem e ali, em cima mesmo daquela caixa
de madeira fechada, João Bem-te-vi botava o disco,
acionava a manivela, fazendo girar o prato e mantinha
sobre o mesmo a agulha para produzir o som. Era sim-
plesmente maravilhoso
. A música saía como que num
passe de mágica e se usava até para alegrar as festi-
nhas familiares que alguém promovia em suas datas
comemorativas.
E os pares rodopiavam no salão, ao som daquela
maravilha de João Bem-te-vi, que, ao final, recebia os
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